O Futuro que se Mede em Qubits

O desenvolvimento da tecnologia tem sido uma constante da história humana, mas raramente a um ritmo tão acelerado como agora. Se a inteligência artificial tem roubado as atenções mediáticas, há uma revolução mais discreta a ganhar forma nos laboratórios de física: a dos computadores quânticos. O investimento mundial em empresas desta área multiplicou-se por seis num único ano, e gigantes como a Google e a IBM apresentam já os seus próprios processadores quânticos, numa corrida que promete moldar o nosso futuro tão profundamente como a IA.

O Futuro que se Mede em Qubits

 

O desenvolvimento da tecnologia tem sido uma constante da história humana, mas raramente a um ritmo tão acelerado como agora. Se a inteligência artificial tem roubado as atenções mediáticas, há uma revolução mais discreta a ganhar forma nos laboratórios de física: a dos computadores quânticos. O investimento mundial em empresas desta área multiplicou-se por seis num único ano, e gigantes como a Google e a IBM apresentam já os seus próprios processadores quânticos, numa corrida que promete moldar o nosso futuro tão profundamente como a IA.

Para compreender o que está em jogo, é preciso recuar ao alicerce de toda a computação moderna: o bit, a unidade elementar de informação que só pode assumir um de dois valores — zero ou um, como um interruptor aceso ou apagado. O qubit, o seu primo quântico, também pode representar zero ou um, mas pode ainda existir num estado a que os físicos chamam sobreposição: uma mistura probabilística dos dois valores em simultâneo, verdadeira e não apenas desconhecida por nós. Combinada com um segundo fenómeno, o entrelaçamento, que liga qubits entre si de forma indissociável, esta propriedade faz com que o número de estados possíveis cresça exponencialmente com cada qubit acrescentado: com apenas mil qubits, as combinações possíveis tornam-se tão numerosas que seria fisicamente impossível escrevê-las todas, mesmo usando cada átomo do universo conhecido.

É esta capacidade que explica por que razão os computadores quânticos não são, nem alguma vez serão, substitutos universais dos computadores clássicos. Para tarefas do quotidiano continuarão a ser, durante muito tempo, uma solução dispendiosa e desnecessária, como usar um vaivém espacial para ir levar os filhos à escola. O seu verdadeiro valor reside numa classe restrita, mas poderosíssima, de problemas: quebrar certos tipos de cifra criptográfica, simular com precisão o comportamento de átomos e moléculas, e talvez, ainda com muitas interrogações pelo caminho, optimizar problemas complexos de finanças e logística.

Mas construir esta tecnologia está longe de ser trivial. Os qubits são extremamente frágeis: basta uma vibração térmica ínfima ou uma falha no controlo do equipamento para que a sobreposição se desfaça e o cálculo se perca. Por isso, os investigadores agrupam vários qubits físicos, sujeitos a erro, para formar um único qubit "lógico" fiável, através de códigos de correcção de erros. É neste campo que se trava agora a verdadeira corrida: a Google já demonstrou, em 2024, ser capaz de manter um destes qubits lógicos estável durante cerca de uma hora, e a IBM fixou como meta produzir, até 2029, um processador com 200 qubits lógicos — um marco que os especialistas designam por "tolerância a falhas", e que é hoje considerado o grande obstáculo a vencer antes de estas máquinas se tornarem verdadeiramente úteis fora do laboratório.

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